Smart: como funciona a ferramenta de apoio à gestão de áreas protegidas

Aplicativo permite que os fiscais e os próprios indígenas registrem dados sobre biodiversidade, uso público e ameaças a essas áreas, que posteriormente podem virar denúncias. É usado em mais de 50 países.

A Iniciativa

Quem é
aplicativo para monitoramento e gestão de áreas protegidas.
Quem faz
permite que indígenas, fiscais e outros agentes ambientais incluam dados georreferenciados sobre fauna e flora, uso público, desmatamento, fogo e afins para a geração de relatórios que podem qualificar políticas públicas.
O que faz
Sociedade Zoológica de Frankfurt, Wildlife Conservation Society, Zoológico da Carolina do Norte, Panthera, Fundação Peace Parks, Wildlife Protection Solutions, Zoological Society of London e WWF
Onde atua
Nas reservas de Desenvolvimento Sustentável Uatumã e Uacari, e nos parques estaduais Matupiri e Sumaúma, no Amazonas; e nas terras indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, Igarapé Lourdes, Pacaás-Novas, Sete de Setembro, em Rondônia, na Amazônia, e em mais 54 países.

Criada há uma década por entidades ambientalistas com atuação global, a tecnologia Smart, sigla em inglês de “Ferramenta de Monitoramento Espacial e Criação de Relatórios”, ganhou o mundo e é usada hoje em mais de 600 áreas protegidas de 55 países. No Brasil e em nações vizinhas como Colômbia, Argentina e Paraguai, obteve até status de política pública e ajuda a melhorar a gestão e a otimizar recursos humanos e financeiros de parques nacionais, terras indígenas e outras áreas protegidas. 

Na Amazônia brasileira desde 2019, especialmente nos últimos meses, quando ocorreram treinamentos de diversas comunidades, o aplicativo apoia a manutenção de quatro unidades estaduais de conservação no Amazonas e em territórios indígenas em Rondônia. Nesses locais, associado a outras tecnologias, como drones, ajuda na identificação de desmatamentos, fogo e outros crimes. Os dados colhidos podem ser remetidos para fiscalização e aprimoramento de ações governamentais, privadas e da sociedade civil. Em menos de um mês de uso, indígenas Uru-Eu-Wau-Wau identificaram onde estavam as derrubadas e, com a Smart, detalharam e denunciaram o ilícito.

Quem explicou sobre a ferramenta ao PlenaMata foi Felipe Spina Avino, líder do trabalho em Tecnologias para Conservação do WWF-Brasil, entidade que a trouxe para o Brasil, em 2019. Biólogo pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Educação para a Sustentabilidade pela London South Bank University (Inglaterra), já atuou na África do Sul e no Reino Unido com temas urbanos, gerenciamento de áreas protegidas, inovações em conservação e monitoramento da biodiversidade. Spina também é o ponto focal da Smart na América Latina.

“O aplicativo permite a construção de bancos de dados cujas informações organizadas e analisadas jogam luz sobre os impactos e quanto às necessidades de melhorias em políticas públicas para a conservação da biodiversidade. Assim, é possível saber onde e como investir para se obter melhores resultados na proteção dos ambientes naturais”, ressaltou. 

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

PlenaMata – Quais foram as entidades e por que apertaram as mãos para criar a ferramenta, em 2011?

Felipe Spina – A área ambiental sofre com poucos recursos humanos e financeiros no Brasil e em quase todo o mundo. Por isso, Sociedade Zoológica de Frankfurt, Wildlife Conservation Society, Zoológico da Carolina do Norte, Panthera, Fundação Peace Parks, Wildlife Protection Solutions, Zoological Society of London e WWF se uniram para desenvolver uma ferramenta que pode ser usada gratuitamente em qualquer local do globo para melhorar a gestão de áreas protegidas. 

A tecnologia, criada por conservacionistas e para conservacionistas, mede com mais precisão e em tempo real os impactos de ações de proteção da natureza de entidades públicas, privadas e não governamentais. Além disso, muitas vezes as informações disponíveis não estão organizadas e acessíveis para melhorar a gestão e as tomadas de decisões sobre áreas protegidas. Com apoio da Fundação Moore, o WWF trouxe a ferramenta para o Brasil em 2019 e adaptou o sistema, manuais e capacitações ao português e ao espanhol. 

Como a Smart funciona, da floresta ao computador?

O aplicativo opera em celulares e tablets Android. Este ano, uma atualização permitirá seu uso em aparelhos da Apple. Ao invés de carregar GPS, máquinas fotográficas, papel e caneta, fiscais e outros agentes em funções ambientais concentram a coleta de dados no celular. A tecnologia permite que tudo seja anotado de maneira integrada e georreferenciada. 

De volta à base, as informações são baixadas, organizadas e podem gerar relatórios de gestão para as áreas protegidas. Com a ferramenta, pode-se capturar dados sobre conservação da biodiversidade, presença e movimentação de espécies, bem como sobre atividades ilegais, rotas de patrulhamento, ações de gestão dos recursos naturais, uso público e uma série de outros quesitos. 

WWF-Brasil
Interface da Smart: ferramenta permite registro de uma série de indicadores de gestão.

Até informações sobre tempo, condições e distâncias percorridas em saídas de campo para fiscalização, por exemplo, podem ser computadas e disponibilizadas para técnicos e gestores públicos e privados. Tudo isso permite novas e melhores abordagens sobre atividades de conservação, aliando tecnologia, bases de dados, capacitações e uso qualificado das informações coletadas.

Quem pode usar a tecnologia?

Seu código é globalmente aberto. Assim, ela está disponível para órgãos públicos de todos os níveis, gestores de áreas protegidas, comunidades indígenas e tradicionais, cientistas e pesquisadores. Para todos esses públicos, o aplicativo permite a construção de bancos de dados cujas informações organizadas e analisadas jogam luz sobre os impactos e quanto às necessidades de melhorias em políticas públicas para a conservação da biodiversidade. Assim, é possível saber onde e como investir para se obter melhores resultados na proteção dos ambientes naturais.

No caso de um desmatamento criminoso dentro de área protegida, qual é o procedimento?

Diante de ilegalidades como desmatamento, é anotado o tipo da derrubada – se corte raso ou seletivo –, as coordenadas, fotos e outras informações úteis para caracterização do crime. Em seguida, as informações georreferenciadas são baixadas para um computador ou diretamente para uma base de dados em “nuvem”, por exemplo. 

Adiante, podem ser gerados relatórios consolidando ilícitos identificados por áreas ou períodos específicos, ajudando a medir e mapear problemas dessa natureza. Com esse material na mão, órgãos públicos podem organizar ações de fiscalização, investimentos e políticas de conservação. Além disso, ONGs ou entidades indígenas podem usar tais evidências para formalizar denúncias ao Ministério Público ou à imprensa. A ferramenta não faz isso sozinha, mas ajuda a coletar, organizar e mapear as informações. 

Menos de um mês após a capacitação, indígenas Uru-Eu-Wau-Wau já apontavam desmatamentos ilegais em seu território. Com drones, para os quais também foram habilitados com apoio do WWF-Brasil, identificaram onde estavam as derrubadas e, com a Smart, detalharam e denunciaram o ilícito.

No Brasil, onde a ferramenta é usada? 

Em quatro unidades de conservação do Amazonas (as reservas de Desenvolvimento Sustentável Uatumã e Uacari, e os parques estaduais Matupiri e Sumaúma) e nas terras indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, Igarapé Lourdes, Pacaás-Novas, Sete de Setembro, em Rondônia. Nessas regiões, conseguimos fornecer celulares adequados e até instalar sistemas de comunicação que digitalizam sinais de rádio para garantir o escoamento das informações. 

Dezenas de pessoas também foram capacitadas para uso e configuração da ferramenta, bem como para a geração de relatórios. Uma capacitação completa pode exigir até duas semanas. Quando baixado, o aplicativo vem “zerado”, ele precisa ser configurado conforme as necessidades de cada órgão, de cada área onde será usado. Capacitações online devem ser ofertadas este ano por meio da Escuela Latinoamericana de Áreas Protegidas (ELAP). 

Nessas áreas, há algum exemplo de uso ou ação bem sucedida decorrente da Smart?

Menos de um mês após a capacitação, indígenas Uru-Eu-Wau-Wau já apontavam desmatamentos ilegais em seu território. Com drones, para os quais também foram habilitados com apoio do WWF-Brasil, identificaram onde estavam as derrubadas e, com a Smart, detalharam e denunciaram o ilícito. Outras coisas positivas foram a identificação e o monitoramento de ninhos de gavião-real, de harpias, em seu território, também com o Smart.

Países vizinhos e de outras regiões também aproveitam a tecnologia?

Uma das experiências mais antigas com a tecnologia é com os nativos Massai Mara, no Quênia, que a usam para manejo e controle de seu território. Cada país usa conforme suas necessidades e hoje já são mais de 600 áreas protegidas em 55 países usando a Smart. Na Europa seu uso é menor, sem razões identificadas. O aproveitamento é concentrado na África e Ásia, inclusive porque o aplicativo de início estava disponível apenas em inglês e francês. Com sua adaptação ao espanhol e ao português, muitos outros países o adotaram. 

Há iniciativas no Peru, Paraguai, Argentina e Equador. Na Colômbia, é usado desde 2012 e se tornou uma ferramenta oficial do governo nacional, ajudando a monitorar quase 60 áreas protegidas, como o Parque Natural Nacional Chingaza. Medida semelhante foi tomada no Amazonas, onde uma portaria o adotou como uma tecnologia do governo estadual, em 2020. Também temos um projeto para difundir seu uso em países lusófonos ricos em florestas, como Angola e São Tomé e Príncipe, na África.

No Brasil, há experiências fora da Amazônia brasileira?

Sim, há iniciativas em desenvolvimento para uso do aplicativo em unidades de conservação com Mata Atlântica, por exemplo, na Região Sul, como o Parque Estadual do Turvo (RS) e o Parque Nacional do Iguaçu (PR), em ações ligadas à conservação de onças-pintadas e de outras espécies.

Como se engajar

Site da iniciativa
https://smartconservationtools.org/
Contatos
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Foto do alto mostra tela do aplicativo Smart sendo testado em Rondônia, na Amazônia. Foto: Gabriel Bicho/WWF-Brasil