A Aliança dos Povos da Floresta, liderada por Chico Mendes e líderes indígenas, surgiu em 1987 para fortalecer a união entre indígenas e extrativistas na defesa da Amazônia. Hoje, enfrenta o desafio de combater a propagação de fake news que prejudicam a proteção das florestas e seus habitantes. Jovens têm se destacado como agentes transformadores, utilizando as redes sociais para mobilizar e conscientizar sobre a crise climática.

Anunciada em 1987, em Brasília, durante o lançamento da Campanha em Defesa da Amazônia, a Aliança dos Povos da Floresta, idealizada por Chico Mendes e lideranças indígenas, pretendia fortalecer os vínculos entre indígenas e extrativistas na luta pela defesa da floresta e dos povos que nela habitavam, seguindo modelos de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, como as demarcações de territórios e a criação de reservas extrativistas.

Os primeiros encontros que marcaram o início da atuação da Aliança aconteceram no contexto das reuniões do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri (STTR-Xapuri), onde Chico era presidente e convidava lideranças indígenas para debater alternativas ao desmatamento e às queimadas, questões que, naquela época, já desafiavam as comunidades a encontrar soluções.

Em Brasília, estavam presentes o Conselho Nacional dos Seringueiros, hoje Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), e a União das Nações Indígenas (UNI), além de membros da sociedade civil, ambientalistas e observadores nacionais e internacionais. Firmado o pacto, “já que as lutas eram iguais e que muitas coisas que aprendemos (extrativistas), nossos costumes na floresta, são costumes dos indígenas. Tínhamos uma herança de indígenas”, disse Chico.

Trinta e sete anos depois, as lutas em defesa dos territórios continuam, mas com novos desafios. Agora, o desafio em defesa das florestas e dos povos ganha mais um componente: o combate à desinformação – ou fake news – gerada nas redes sociais e espalhada sem qualquer controle do poder público. Durante os últimos 4 anos, o número de notícias falsas tomou proporções imensuráveis, atingindo também as populações mais vulneráveis.

Trinta e sete anos depois, as lutas em defesa dos territórios continuam, mas com novos desafios. Agora, o desafio em defesa das florestas e dos povos ganha mais um componente: o combate à desinformação – ou fake news – gerada nas redes sociais e espalhada sem qualquer controle do poder público. Durante os últimos 4 anos, o número de notícias falsas tomou proporções imensuráveis, atingindo também as populações mais vulneráveis.

Bruno Pacífico e Leiliane Marinho

O projeto “Combate à desinformação sobre a Amazônia Legal e seus defensores” – do Intervozes – evidenciou a existência de grupos políticos de direita e extrema-direita que espalham narrativas falsas sobre a Amazônia.

Foram mapeados 70 perfis e páginas que publicaram desinformação e conseguiram ter muito alcance nas redes. Entre várias informações falsas, a manipulação de dados e fatos era a mais utilizada, como: “somos um dos países que mais preserva o meio ambiente e suas florestas”, dita pelo ex-presidente Bolsonaro na IX Cúpula das Américas nos Estados Unidos, em 2022.

Outra notícia falsa muito propagada é que a região amazônica é uma terra pouco habitada, sendo um vasto verde selvagem intocado pelos seres humanos. Essas “notícias” são um problema sério para a proteção das florestas e provocam impactos negativos para todos que habitam esses territórios.

Pensar em combater as narrativas falsas nos impele a considerar as juventudes como agentes transformadores no combate às fake news. Em se tratando das Amazônias, não há dúvidas de que os jovens têm potência e força para ajudar a atenuar a crise climática, talvez justamente por serem muito afetados e também herdeiros de um mundo cada vez mais danificado.

Atualmente, há diversas iniciativas jovens que lutam contra as emergências climáticas em espaços que, em outros momentos, eram ocupados apenas por adultos. Eles ocupam e atuam em organizações governamentais, não-governamentais, sindicatos e associações, usando ferramentas da nova era – as redes sociais – para mobilizar e transmitir suas narrativas sobre como suas comunidades estão sendo impactadas aos quatro cantos do mundo, usando suas vozes e seus territórios para informar e conscientizar sobre a emergência climática.

No Acre, organizações como a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) e o Comitê Chico Mendes atuam juntas na retomada da Aliança dos Povos da Floresta e buscam fortalecer e engajar essas juventudes para seu protagonismo. O Comitê Chico Mendes e a CPI-Acre, em parceria com a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre (AMAAIAC), a Associação dos Produtores e Produtoras do Seringal Floresta e Adjacências (ASPAFA), o Coletivo Varadouro e a Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade (Associação Mulher Flor), estiveram reunidos durante quatro dias, em Xapuri, com 54 jovens – em ações de formação, intercâmbio e trocas culturais – envolvendo diversos Territórios do estado: Reserva Extrativista Chico Mendes, Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade, Terras Indígenas Poyanawa, Nukini, Kaxinawá da Praia do Carapanã, Kaxinawá do Baixo Rio Jordão e Mamoadate, além de jovens do contexto urbano de Xapuri, Plácido de Castro e Rio Branco.

Oficinas de formação ofereceram aos jovens ferramentas de comunicação e engajamento para levar o ativismo a um nível mais estratégico, com possibilidades de incidência nacional e internacional. Além de amplificar as vozes de suas organizações de base, no contexto de comunidades tradicionais e povos originários de territórios amazônicos, potencializamos suas condições de influenciar políticas públicas, fortalecendo as lutas e capacidades de atuação e intervenção nas agendas culturais, socioambientais e climáticas, por meio do ativismo e da comunicação.

O encontro de Xapuri foi a segunda etapa de atividades realizadas pelo Comitê e a CPI-Acre. A primeira oficina realizada pelo Comitê Chico Mendes reuniu 30 jovens na Semana Chico Mendes 2022, pelo programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC) do WWF-Brasil.

Na CPI-Acre, a formação de jovens comunicadores indígenas iniciou em 2021 para fortalecer e apoiar a luta dos povos indígenas por direitos. As oficinas foram realizadas em parceria com o Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Acre (UFAC) e fazem parte do Projeto Aliança entre Indígenas e Extrativistas pelas Florestas do Acre, no âmbito do consórcio entre a CPI-Acre, SOS Amazônia e Instituto Catitu, apoiado pela Rainforest Foundation da Noruega.

A formação realizada em Xapuri faz parte do Programa Vozes pela Ação Climática Justa (VAC) – WWF-Brasil e do projeto Proteção de Povos Indígenas e Tradicionais do Brasil, financiado pelo Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, por intermédio da rede WWF. A realização é feita por um consórcio de parceiros formado pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), Comitê Chico Mendes, Fiocruz, Fiotec, Imaflora, Kanindé, Pacto das Águas, Projeto Saúde e Alegria (PSA) e WWF-Brasil.


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Sobre o autor

Bruno Pacífico é acreano, comunicador popular, ativista socioambiental, voluntário do Comitê Chico Mendes desde 2012 e, atualmente, coordenador de comunicação do Comitê.

Leilane Marinho é jornalista ambiental desde 2010 e mestre em Ciências Ambientais. Nos últimos anos, tem atuado no terceiro setor e na em defesa da causa indígena.