Na Terra Yanomami, garimpeiros matam e ferem indígenas, numa nova escalada de violência. O Povo Mura sofre ameaças por lutar contra mina de potássio em seu território. E especialista alerta que desmatamento e estradas na Amazônia podem abrir espaço para outra pandemia

A violência contra o Povo Yanomami ganhou novos capítulos nos últimos dias. No sábado (29/4), garimpeiros atacaram indígenas a tiros na comunidade Uxiu, matando o agente de saúde indígena Ilson Xirixana e ferindo Venâncio Xirixana e Otoniel Xirixana. No dia seguinte, quatro garimpeiros foram mortos em um confronto com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Segundo a corporação, foi encontrado um grande arsenal de armas no local.Os episódios são mais uma prova da permanente “guerra” para garantir a preservação da floresta e a integridade dos territórios e dos Povos Originários da Amazônia. Essa batalha ganha uma nova nuance: de acordo com o presidente do IBAMA, Rodrigo Agostinho, há fortes indícios de que o garimpo ilegal na região tem sido patrocinado por organizações criminosas, relata o Correio Braziliense. Uma possível prova é que um dos garimpeiros mortos pela PRF era integrante do PCC, talvez a maior facção do crime organizado a operar no Brasil.“A Polícia Federal está trabalhando em duas frentes: investigações de inteligência, nas quais trazem os resultados de conclusões de quem está envolvido, de quem facilita, de quem cria caminhos. É um trabalho de inteligência que vai ser feito de forma isenta”, explicou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, que integrou a comissão interministerial que foi a Roraima na segunda-feira (1/5) para verificar a situação na TI Yanomami após o assassinato do indígena.O crime organizado, porém, não é a única ameaça. Líderes do Povo Mura contaram que as tensões aumentaram em Autazes (AM), após uma equipe da FUNAI visitar a região para discutir a demarcação do território Soares/Urucurituba. É nesse território onde os Mura vivem que a canadense Potássio do Brasil quer instalar uma mina de potássio – um projeto de US$ 2,5 bilhões.Sérgio, uma liderança Mura, disse que depois da visita da FUNAI, informações falsas começaram a circular, incluindo a de que entidade “ia tomar terra de fazendeiro”. Uma segunda liderança, Adnelson, relatou ameaças “antes e depois” da visita, incluindo um bilhete deixado no conselho indígena local dizendo que “se [o projeto da] Potássio não acontecer, algum de vocês vai rodar”, segundo o UOL.O procurador federal Fernando Soave afirmou que as consultas ao Povo Mura não têm sido nem “livres” nem “de boa fé”. O representante do Ministério Público Federal (MPF) também cita ameaças contra os indígenas desde que a Brasil Potássio iniciou a tentativa de aprovar o projeto de mina. A empresa nega qualquer coação aos indígenas e disse que “segue o protocolo de consulta à risca”.O avanço sobre as Terras Indígenas e a Floresta Amazônica não são um risco apenas para as comunidades da região. Em artigo no UOL, o biólogo Lucas Ferrante chama atenção para a possibilidade de novas pandemias surgirem com a devastação ambiental. Culpa dos saltos zoonóticos – quando vírus, bactérias, fungos e parasitas estocados em alguns organismos se espalham para outros, incluindo humanos.“Dois fatores têm se mostrado como gatilhos para novas pandemias, sendo eles, primeiramente, o aumento de degradação florestal, ou desmatamento em pontos com alta biodiversidade, atuando em sinergia com fatores sociais que tendem a aumentar a mobilidade dos patógenos, permitindo sua rápida dispersão e maior replicação”, explica Ferrante.“Isso mostra a importância da prevenção de fatores que possam propiciar o surgimento de novas pandemias, como políticas de desmatamento zero para a Amazônia, proibições de plantios para monoculturas que possam suscitar novos ciclos de desmatamento, como dendê, cana-de-açúcar e milho, além da criação de animais confinados”, reforça o especialista.

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