Muito mais do que colocar a Amazônia no centro do debate climático mundial, presidente eleito ainda cobrou os países ricos a colaborarem mais

O discurso do presidente eleito Lula na COP27 não se limitou às questões ambientais e climáticas, como analisa Jamil Chade no UOL. O que não significa, e muito pelo contrário, que o líder petista não tenha deixado um recado claro e em alto e bom som: “Não há segurança climática para o mundo sem uma Amazônia protegida. Não mediremos esforços para zerar o desmatamento e a degradação de nossos biomas até 2030, da mesma forma que mais de 130 países se comprometeram a assinar a Declaração de Líderes de Glasgow sobre florestas. Por esse motivo, quero aproveitar esta Conferência para anunciar que o combate à mudança climática terá o mais alto perfil na estrutura do meu governo. Vamos priorizar a luta contra o desmatamento em todos os nossos biomas” afirmou Lula que, em seu discurso, falou nove vezes a palavra Amazônia. Aliás, ele foi claro que o combate ao desmatamento é para todos os biomas, e não só na Amazônia. O vídeo da fala pode ser visto também na Folha.

No campo ambiental – e fora dele, o futuro presidente do Brasil deixou claro que ele continuará lutando contra uma extrema direita negacionista. “Ao final de uma disputa acirrada, o povo brasileiro fez a sua escolha, e a democracia venceu. Com isso, voltam a vigorar os valores civilizatórios, o respeito aos Direitos Humanos e o compromisso de enfrentar com determinação a mudança climática”.

Na visão do desenvolvimento sustentável projetada pelo discurso, não se pode pensar na Amazônia se os Povos Tradicionais e as comunidades indígenas não estiverem incorporadas ao debate. Em resumo, como também concorda o colunista Tales Farias, a participação de Lula no Egito recoloca, com todas as letras, o Brasil no mundo e no centro da pauta ambiental.

Sobre o debate oficial em curso nas salas de negociações diplomáticas da COP27, o que tenta construir mecanismos que façam os países ricos ajudarem com dinheiro os mais vulneráveis, Lula fez questão de tomar partido. “São tempos difíceis. Mas foi nos tempos difíceis e de crise que a humanidade sempre encontrou forças para enfrentar e superar desafios.(…) Precisamos de mais confiança e determinação. Precisamos de mais liderança para reverter a escalada do aquecimento. (…) Os acordos já finalizados têm que sair do papel. Para isso, é preciso tornar disponíveis recursos para que os países em desenvolvimento, em especial os mais pobres, possam enfrentar as consequências de um problema criado em grande medida pelos países mais ricos, mas que atinge de maneira desproporcional os mais vulneráveis.” 

No jargão dos diplomatas essa discussão está sendo chamada pelo nome de “perdas e danos”. Observadores que acompanham as sessões – e a Reuters detalhou alguns pontos específicos presentes no documento oficial sobre meios de financiamento climáticos em discussão na COP27 – não estão otimistas com um desfecho 100% prático até sexta-feira, último dia da reunião. O assunto só deve ser definido no futuro. Sobre o fato de muita coisa ser apalavrada nas reuniões da ONU e não sair do papel, Lula disse que também voltou para cobrar o cumprimento desses acertos diplomáticos.

A cereja do bolo foi o fato de o presidente eleito ter anunciado que deve pedir à ONU que a COP30, que será realizada em 2025, ocorra no Brasil e, mais precisamente, em um estado amazônico. O pedido, segundo o Estadão, foi feito pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), líder do consórcio dos governadores e autor do convite para que Lula participasse do evento. “Seremos cada vez mais afirmativos diante do desafio de enfrentar a mudança do clima, alinhados com os compromissos acordados em Paris e orientados pela busca da descarbonização da economia global. Enfatizo ainda que em 2024 o Brasil vai presidir o G20. Estejam certos de que a agenda climática será uma das nossas prioridades”, afirmou Lula, que leu grande parte do discurso preparado pelos seus assessores.

A fala, recheada de recados, apontou ainda para um caminho no qual o futuro governo pretende também ser protagonista. Ou seja, liderar os países em desenvolvimento para que tenham mais espaço. “Voltamos para ajudar a construir uma ordem mundial pacífica, assentada no diálogo, no multilateralismo e na multipolaridade. Voltamos para propor uma nova governança global. O mundo de hoje não é o mesmo de 1945. É preciso incluir mais países no Conselho de Segurança da ONU e acabar com o privilégio do veto, hoje restrito a alguns poucos, para a efetiva promoção do equilíbrio e da paz.”


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