Ausência de estratégia nacional dilui potencial ambiental do país no exterior

Boiadas vão passando, e o Brasil está deixando de assumir o protagonismo mundial em negócios verdes

A política em Brasília, tanto via Congresso quanto a partir do Executivo Federal, vem dinamitando as possibilidades do Brasil assumir o seu protagonismo em negócios verdes no cenário internacional. No exterior, o Brasil ainda é visto como um país amigável e que pode entregar energia e alimentos sustentáveis em grande escala.

Especialistas na área, como mostra o Valor, são diretos ao dizer que não existe país no mundo em condições semelhantes a do Brasil em captação de investimentos robustos na área ambiental. Para isso, entretanto, é preciso se ter planos concretos de médio e longo prazo, o que vai na direção oposta das boiadas que insistem em passar olhando pelo retrovisor e seguindo na contramão das oportunidades.

A atenção deve ser redobrada em direção aos riscos que percorrem os gabinetes do Congresso Nacional. No site ((o)) eco, Daniele Bragança mostrou quais são as prioridades da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) neste segundo semestre de 2022, que tem uma agenda muito apertada devido às eleições. A intenção dos congressistas que integram a ala mais retrógrada da bancada ruralista passa longe de fazer o Brasil se consolidar como uma potência verde. Por eles, o que precisa ser aprovado a toque de caixa são textos como o do o PL 2.159/2021, que afrouxa o licenciamento ambiental; o do PL 510/2021, também conhecido como “PL da Grilagem”; e o do PL 1.458/2022, apelidado de “PL do Veneno”.

“No Senado Federal temos licenciamento ambiental, pesticidas, regularização fundiária. A questão dos pesticidas vai perdurar para o segundo semestre, e vamos fazer uma análise se votaremos nos esforços concentrados que teremos, tanto no Senado quanto na Câmara, ou se deixaremos para após a eleição,” disse o deputado Sérgio Souza (MDB-PR), presidente da FPA.

No Congresso Nacional, ao contrário do que deveria ocorrer, planos estratégicos parecem não ter vez frente aos lobbies que miram apenas em atender aos interesses imediatos de minorias empoderadas em detrimento dos interesses da coletividade.

Outra oportunidade que pode estar sendo perdida pelo “país do futuro” que nunca chega refere-se à regulação do mercado de carbono, como mostra outra reportagem do Valor. Representantes da Academia e do setor privado alertam que o Brasil está bastante atrasado neste tema, na comparação com Estados Unidos, Europa e China, entre outros, e defendem o avanço dos debates no contexto nacional. Empresários apontam que, por mais que o chamado mercado voluntário de carbono esteja sendo alavancado, é essencial se ter regras definidas para que o mercado regulado possa evoluir em paralelo e, inclusive, se ligar às regras no âmbito do Acordo de Paris.

A questão que se impõe, diante do derretimento da política ambiental nacional, como escreve Miriam Leitão, em O Globo, é como o Brasil vai conseguir “atualizar sua agenda ambiental”. O primeiro ponto, segundo a jornalista, que usa a frase da ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva para construir seu argumento, é que isso será impossível caso a releição de Bolsonaro ocorra. Em segundo lugar, caso o ex-presidente Lula vença as eleições – neste momento as pesquisas mostram ausência de uma terceira via –, será preciso montar um plano de reconstrução, algo que, segundo análise de Miriam Leitão, não será simples, devido ao enfraquecimento de órgãos como o IBAMA, o ICMBio e a FUNAI.

“Esta é uma hora decisiva para o Brasil, e quem vai à Amazônia sente isso ao pisar naquele chão. Um novo governo que não seja a continuação do atual terá muito trabalho a fazer nessa agenda perdida ambiental e climática. Todo o cuidado é pouco neste fim de governo e fim de legislatura”, escreveu a jornalista em seu blog, em texto também assinado por Alvaro Gribel.