Soluções baseadas na natureza ou geoengenharia climática para enfrentar a emergência do clima?

Estas ‘soluções’, propagadas pela indústria do petróleo, para reduzir o aquecimento global são puro engodo e potencialmente arriscadas. A medida mais urgente e eficiente é zerar o desmatamento.

Sempre é importante começar dizendo que não há maneira mais barata, fácil e rápida de reduzir emissões de gases de efeito estufa do que zerar o desmatamento de florestas tropicais. 

Na COP26, realizada em 2021, mais de 100 países, incluindo o Brasil, se comprometeram a zerar o desmatamento até 2030. Entretanto, o Brasil mais uma vez bateu o recorde de desmatamento, com 1.129 km² de florestas derrubadas em junho de 2022, o maior número para o mês desde 2016. Com a provável mudança de governo no Brasil, este semestre de eleições deverá ter aumento expressivo de desmatamento e queimadas.

Uma lei recentemente aprovada no congresso americano destina US$ 9 bilhões para a proteção da Amazônia, o chamado “Amazon21Act”. Esta lei foi feita para “mitigar e atingir zero emissões vindas da natureza para o século 21”. Muitas iniciativas similares fazem parte da ideia de soluções baseadas na natureza (nature-based solutions). Mas o que isso tenta dizer exatamente? 

Significa que podemos encontrar soluções para as mudanças climáticas dentro do próprio funcionamento dos ecossistemas, sem reduzir a queima de combustíveis fósseis ou mudar hábitos de consumo. Claro que isso é um enorme engodo, mas que vem sendo propalado intensivamente, inclusive pela indústria do petróleo. 

É evidente que temos que respeitar os limites e funcionamento dos ecossistemas. Mas para enfrentar a emergência climática, além de reduzir o desmatamento, temos que zerar as emissões de combustíveis fósseis o mais rápido possível. É um jogo de empurra-empurra, pois os países desenvolvidos, os que mais queimam combustíveis fósseis, querem colocar a “solução” da questão nos países em desenvolvimento, como Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e outros.

É um jogo de empurra-empurra, pois os países desenvolvidos, os que mais queimam combustíveis fósseis, querem colocar a “solução” da questão nos países em desenvolvimento, como Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e outros.

A estratégia de não reduzir emissões de combustíveis fósseis acontece também na geoengenharia climática, que são estratégias geofísicas como a que injeta aerossóis na estratosfera para reduzir a incidência de radiação solar, técnica chamada “Solar Radiation Management”. Ou ainda a que aumenta a capacidade dos oceanos de absorver carbono da atmosfera, jogando milhões de toneladas de ferro solúvel (um nutriente essencial para os oceanos) nos mares para aumentar a absorção de CO2. Uma terceira estratégia lida com alterar o brilho das nuvens, injetando núcleos de condensação de nuvens, para diminuir o tamanho de gotas de nuvens e assim fazer elas refletirem mais radiação solar de volta ao espaço. 

Importante salientar que nenhuma destas três técnicas é factível hoje – e todas elas têm efeitos colaterais muito fortes e importantes. Podem alterar o ciclo hidrológico de todo o planeta, afetando a produção de alimentos em escala global. Podem alterar a circulação atmosférica, pois os efeitos da redução de radiação não serão homogêneos. Podem prejudicar o clima de alguns países e favorecer o de outros, trazendo desequilíbrios geopolíticos, entre outros efeitos.

Mas há outras estratégias melhores. O congelado (pelo governo brasileiro) Fundo Amazônia tem uma proposta diferente, pois investe em soluções que, além de parar o desmatamento, trazem desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Várias ONGs que atuam na Amazônia, como o Ipam, Imazon, ISA, Imaflora e muitas outras, atuam nestas perspectivas, de encontrar soluções que levem em conta o combate às desigualdades sociais, às ilegalidades de invasões de terras públicas e garimpos, além da proteção de territórios indígenas. 

O Fundo Amazônia e estas ONGs focam suas soluções baseadas em ciência e estruturam políticas públicas consistentes. Com as atuais emissões globais de 58 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa, estamos levando o planeta para um aumento global médio de temperatura de 3 graus. 

O Brasil precisa de políticas de estado para lidar com as questões ambientais e climáticas. Não de ações de governo, baseadas em curtíssimo prazo. Desperdiçamos bilhões de reais ao longo dos últimos 4 anos em ações “para inglês ver”, pensadas na propaganda ao invés da efetividade de medidas para reduzir o desmatamento criminoso, acabar com garimpo ilegal e a invasão de terras indígenas protegidas pela Constituição. 

A sociedade deve exigir políticas de estado para que o Brasil possa desenvolver a Amazônia de modo sustentável.

Os artigos de opinião são de responsabilidade do autor.

Sobre o autor

Paulo Artaxo

Paulo Artaxo é professor do Instituto de Física da USP, membro do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da World Academy of Sciences...