Os brutais assassinatos na Amazônia repercutem nas eleições

Retórica sobre a questão ambiental entra na ordem do dia

Como reconhece Marcos Rocha, secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Economia, qualquer notícia sobre a Amazônia “repercute bastante lá fora”, fazendo referência aos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. Mas, nesta reportagem do Valor Econômico, o representante do governo federal, em sintonia com Paulo Guedes e as diretrizes do presidente da República, também afirma que é necessário mudar a percepção que há no exterior a respeito de como o governo trata a região. “Tem muita informação e precisamos procurar as fontes mais sólidas”, diz.

A retórica do governo federal – que não menciona, por exemplo, os números recordes do desmatamento amazônico – também busca relativizar os assassinatos de Bruno e Dom. O vice-presidente Hamilton Mourão apareceu em público com o objetivo de tentar circunscrever os dois crimes chocantes a algum comerciante da região, que teria ficado incomodado principalmente pelo trabalho de Bruno. “O Dom entrou de gaiato nessa história”, afirmou Mourão ao O Globo

Enquanto isso, os indígenas organizados do Vale do Javari, que tiveram papel decisivo na elucidação do caso – outra faceta das investigações que o governo federal busca esconder – defendem a tese, com base em documentos já enviados à Polícia Federal, de que o crime organizado e o narcotráfico podem estar envolvidos com a morte. 

Por meio de nota, a UNIVAJA afirmou que Mourão “desconsidera que o inquérito policial aponta a existência de um grupo criminoso organizado para saquear os recursos naturais da Terra Indígena Vale do Javari”, como também registrou o Valor Econômico.

Segundo o jornalista Claudio Angelo, em nome do Observatório do Clima, a eleição presidencial do Brasil deste ano tem tudo para ser um dos mais importantes eventos climáticos de 2022 em nível mundial. Se Bolsonaro se mantiver no cargo, avalia Angelo, tanto a Amazônia como a meta de limitar o aquecimento do planeta em 1,5 graus Celsius estão correndo sérios riscos.

Enquanto isso, a candidatura do petista Luiz Inácio Lula da Silva, como registrou Catia Seabra na Folha, também passou a dar mais peso retórico à questão amazônica. O grande problema, em ambos os lados, é saber, de fato, como a qualidade de vida dos amazônidas e o futuro do planeta vão, de fato, melhorar após outubro de 2022. Como escreve Virgílio Viana também no Valor, “os casos que despertam atenção da mídia e da opinião pública nacional e internacional são apenas a ponta do iceberg”. O mais importante agora, segundo o professor da Fundação Dom Cabral, é ter a consciência de que o crime organizado na Amazônia é algo estrutural e sistêmico.


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