O dinheiro que dá em árvore na Amazônia

Organizações públicas e privadas que geram renda sem destruir são fundamentais para a preservação das florestas tropicais do planeta.

Quando pensamos em floresta, duas imagens nos vêm à mente: uma natureza intocada, sem a presença humana, ou um cenário de destruição, com queimadas e desmatamento. O primeiro parece inviável economicamente e o segundo já se mostrou inviável para o planeta, pois agrava os efeitos das mudanças climáticas e ameaça nossa biodiversidade. A boa notícia é que o caminho do meio existe: em florestas tropicais de todo o globo há bons exemplos de soluções que preservam e geram renda ao mesmo tempo e é para elas que precisamos olhar.

O mundo todo está de olho na Amazônia, pois já percebeu que preservá-la é questão, literalmente, de vida ou morte, para a humanidade na Terra. No entanto, esse tipo de bioma não é exclusivo da América do Sul e trocar experiências com quem vive em outras florestas da África e da Ásia pode nos ajudar a enxergar caminhos para resolver a situação por aqui. O documentário Forest Partners, em bom português “Parceiros da Floresta”, atravessa os três continentes mostrando o potencial econômico das florestas, baseado em sistemas de produção sustentáveis e inclusivos.

O filme, que teve sua pré-estreia no Brasil durante o ClimaX SP, evento paralelo da COP 26, realizado pelo Instituto O Mundo Que Queremos, e também na próprio evento, em Glasgow, deve ser lançado oficialmente no início de 2022, e todo mundo deveria assistir para substituir na cabeça as duas imagens do início desse texto por outras mais sustentáveis e interessantes para todos.

Dirigido pelo cineasta Fred Rahal Mauro e escrito por Juliana Tinoco, o trabalho é uma produção do Partnerships for Forests (P4F), programa global do governo britânico para acelerar negócios e promover iniciativas que tenham o potencial de proteger ou restaurar florestas.

É possível conservar e ganhar dinheiro ao mesmo tempo e é isso que nosso filme ‘Parceiros da floresta’ mostra.

Marcio Sztutman, diretor do programa América Latina do P4F

Com imagens de cinema, o filme do P4F mostra diversos exemplos de ecossistemas economicamente viáveis e ambientalmente sustentáveis que estão prosperando no meio das florestas tropicais do planeta e deveriam servir de exemplo para todos, especialmente num momento em que todos estão falando de economia verde.

São inovações bem-sucedidas que provam que a combinação de tecnologia e conhecimentos tradicionais dá muito certo, inclusive, para restaurar paisagens já bastante degradadas, como já é o caso de boa parte da nossa Amazônia.

Segundo Marcio Sztutman, que é diretor do programa América Latina do P4F, produções como essa servem para mostrar aos investidores que não é tão arriscado investir em negócios verdes, muito pelo contrário, é muito mais sustentável, inclusive economicamente e no longo prazo. Ele tem razão.

Ninguém mais deveria investir em negócios que incentivam a destruição e quem ainda está lucrando com isso tem muito a perder num futuro próximo, além de prejudicar todos os esforços para conter o avanço das mudanças climáticas, cujos efeitos não param de aparecer para nos lembrar que não podemos continuar com o mesmo modelo de desenvolvimento de sempre. “É possível conservar e ganhar dinheiro ao mesmo tempo e é isso que nosso filme mostra”, ressalta Sztutman.

Divulgação P4F
A Coopavam é a única cooperativa de Mato Grosso que trabalha com produtos da sociobiodiversidade envolvendo agricultores familiares de assentamentos, aldeões de 3 terras indígenas. É um dos projetos mostrados no filme “Parceiros da Floresta”.

Os projetos mostrados no filme são especiais não só porque dão certo, mas porque podem ser replicados, respeitando as especificidades e as necessidades de cada região. Um deles é o trabalho da Cooperativa dos Agricultores do Vale do Amanhecer (Coopavam), que compra castanha-do-pará diretamente de povos indígenas residentes em reservas indígenas no Noroeste do Mato Grosso e partes de Rondônia, gerando renda para esses povos que ajudam a preservar mais de 1 milhão de hectares de floresta.

A castanha é processada e vendida para uso em alimentos, produtos saudáveis e cosméticos em mercados locais e regionais. A iniciativa tem dado muito certo e, com o apoio da P4F, conquistado novos mercados.

Para o cineasta que conduziu o trabalho, o Fred Rahal Mauro, esse é o momento de mostrar para quem ainda não enxerga o caminho do meio que ele existe, dá certo e é a saída para todos, tanto para comunidades indígenas tradicionais, quanto para pecuaristas, empresários e investidores. “Não é um contra o outro. O objetivo é comum”.


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Sobre o autor

Alexandre Mansur

É jornalista e diretor de projetos do Instituto O Mundo Que Queremos

Angélica Queiroz

É jornalista do Instituto O Mundo Que Queremos