Aplicativo indica carne bovina livre de desmate e outros impactos socioambientais

App do “Do pasto ao prato” mapeia uma série de indicadores para identificar o grau de sustentabilidade da carne bovina consumida no Brasil. Ferramenta de ciência cidadã depende da participação ativa dos consumidores.

A Iniciativa

Quem é
aplicativo que classifica carne bovina consumida no Brasil de acordo com sustentabilidade da sua cadeia produtiva
Quem faz
Trase, Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e ONG Repórter Brasil
O que faz
promove consumo consciente ao mapear e aumentar a transparência da carne vendida em supermercados e estabelecimentos comerciais 
Onde atua
em todo o Brasil

Um dos direitos mais destacados no Código de Defesa do Consumidor, de 1990, é o de que todos os brasileiros podem escolher os produtos e os serviços que acharem mais convenientes. Mas sem informações claras e detalhadas nas embalagens e rótulos, a população pode acabar comprando “gato por lebre”, como carnes bovinas oriundas de fazendas envolvidas com desmatamento, escravidão e outros crimes federais. 

Para estimular um consumo consciente, a Trase, rede global que mapeia comércio e financiamento de commodities, a Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e a ONG Repórter Brasil lançaram o aplicativo para celular “Do pasto ao prato”. O app – ainda em desenvolvimento (versão beta), mas já disponível para uso – cruza dados públicos sobre desmate ilegal, queimadas, multas para trabalho escravo e descumprimento de normas sanitárias por frigoríficos ou fazendas para apontar quais carnes são mais ou menos sustentáveis. 

“Desenvolvemos a ferramenta porque a grande maioria da carne produzida no Brasil é consumida no próprio país, e as pastagens são uma fonte potente de desmatamento na Amazônia e nos demais biomas. O app empodera os consumidores, permitindo aos brasileiros adquirir produtos livres desses impactos”, explicou a bióloga e co-criadora do app Vivian Ribeiro, pesquisadora no Stockholm Environment Institute (Suécia).

Aplicativo App “Do pasto ao prato”. Credit: Trase/Divulgação Credit: Trase/Divulgação

Para descobrir a “qualidade socioambiental” da carne que pretendem comprar, os usuários devem inserir no “Do Pasto ao Prato” informações sobre o SIF (selo federal para produtos de origem animal), o tipo da carne, o nome do frigorífico e do supermercado ou estabelecimento comercial. Em seguida, o app apresenta um ranking para o produto com base nos indicadores avaliados, ajudando na decisão de compra. Quanto mais verde sua classificação, menos problemas socioambientais há na carne.

Um estudo publicado na revista PNAS – Proceedings of the National Academy of Sciences apontou que 80% da carne produzida no Brasil entre 2015 e 2017 foi consumida no país e que apenas 20% restantes foram exportados. Fatores como a crise econômica ampliaram para 26% o percentual vendido a outros países no ano passado. “Desmatamento e outros problemas socioambientais estão mais associados à carne consumida no país do que à exportada. O mercado interno é flexível a esses produtos”, disse Ribeiro.

Melhorar a transparência desse mercado se tornou uma questão crucial, pois os danos a ambientes naturais e a populações indígenas e tradicionais estão “escondidos” nas longas e complexas cadeias de abastecimento da carne. Uma análise publicada na plataforma “Amazônia 2030” aponta que grandes frigoríficos vêm dominando o processamento de carne produzida na região, onde uma pecuária de baixíssima produtividade serve à ocupação criminosa de terras.

Desmatamento e outros problemas estão mais associados à carne consumida no país do que à exportada. O mercado interno é flexível a esses produtos.

Vivian Ribeiro, pesquisadora e co-autora do app “Do pasto ao prato”

O aplicativo está de olho na carne bovina, mas há planos para rastrear também produtos suínos e de frango. A ferramenta usa informações federais entre 2016 e 2019 e, em breve, agregará dados de órgãos estaduais. O mapeamento é feito com os registros eletrônicos das Guias de Transporte de Animais (GTAs), obrigatórias para o transporte de animais vivos entre fazendas, e delas aos frigoríficos no país todo. 

Mesmo com a exigência das guias, o rastreamento da cadeia ainda tem falhas. “Há uma concentração de GTAs para os ciclos de abate e de engorda, mas bem menos na ‘base da pirâmide’, no trânsito de animais entre fazendas e também desde locais com infraestrutura precária, como assentamentos rurais”, disse Lisandro Inakake de Souza, coordenador de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora. A instituição mantém a plataforma Boi na Linha, que dá transparência a informações para acelerar o cumprimento de acordos privados e com o Ministério Público Federal para reduzir o desmatamento na produção e comércio de carne, sobretudo nos estados do Pará, Mato Grosso, Amazonas, Rondônia e Acre. 

Os criadores do app solucionam possíveis falhas em informações públicas analisando dados de desmatamento e queimadas nos municípios que fornecem, direta e indiretamente, animais para os frigoríficos. Estabelecimentos que compram gado de municípios onde há muito desmatamento para a abertura de pastagens recebem uma classificação pior.

Lançado em agosto e por enquanto disponível apenas para celulares Android, o aplicativo já rastreou mais de 1.200 produtos, conectando-os a cerca de 300 frigoríficos e 200 supermercados. Mais de 1.000 pessoas baixaram a ferramenta de “ciência cidadã”. No modelo, pesquisadores usam informações geradas pela população para fins científicos, no caso, mapear os caminhos da carne bovina. Dados preliminares indicam que ¼ da carne consumida no Rio de Janeiro vem da Amazônia Legal. Um desafio para o “Do pasto ao prato” é ampliar o número de usuários efetivos da ferramenta.

O entrave é comum em iniciativas semelhantes, avalia o pesquisador Alex Bager, coordenador do Centro Brasileiro de Ecologia de Estradas da Universidade Federal de Lavras (MG), onde foi desenvolvido o Urubu Mobile. Desde 2014, o aplicativo acumulou mais de 25 mil usuários e 100 mil registros de animais atropelados no país. “Numa determinada época, tínhamos 50 mil downloads, mas cerca de 10% de usuários efetivos. Achar que as pessoas continuarão ajudando indefinidamente não é real”, conta.

Para aumentar o engajamento, Bager conta que é preciso investir em atualizações e comunicação. “Usamos técnicas de gamificação para que os usuários tenham níveis diferenciados conforme sua contribuição no app. É preciso retroalimentá-los com materiais ricos em informações e prestar contas sobre o uso dos dados colhidos. Investimentos contínuos em comunicação, desenvolvimento e atualização devoram boa parte do orçamento para projetos desse tipo, mas é assim que se mantêm e atraem novos públicos”, destacou.

De acordo com a pesquisadora Vivian Ribeiro, questões como estas estão no radar da equipe responsável pelo “Do Pasto ao Prato”. “Nosso planejamento envolve tornar a ferramenta ainda mais atrativa para diferentes públicos, melhorar a interação com os usuários e o engajamento com varejistas e outros órgãos privados e públicos”, ressaltou. Uma versão atualizada e mais completa do app será lançada em 2022.

Como se engajar

Site da iniciativa
https://dopastoaoprato.com.br/
download do aplicativo (Android)
Contatos
[email protected]
Redes sociais
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Imagem do topo da página mostra uma boiada em Mato Grosso, maior produtor de carne bovina do Brasil. Crédito: Victor Moriyama/Greenpeace